terça-feira, 16 de junho de 2009

O psicanalista Jurandir Freire e o "Amor Romântico"

Fragmento extraído da entrevista "Totalitarismo e Delinquência".

Guacira Waldeck – O que motivou a escrever Sem fraude, nem favor, livro em que discute o ideal do amor romântico como possibilidade da vida humana?
Jurandir Freire Costa – Em primeiro lugar, a minha preocupação profissional. O sofrimento amoroso é um dos mais invalidantes na época atual, os indivíduos são capazes de paralisar as suas vidas, criatividades, interesses pelo mundo para se dedicarem aos sofrimentos de amor, à ruminação das frustrações amorosas, à busca desesperada de realização de um ideal afetivo-sexual. O amor é apresentado como uma das poucas coisas que podem nos fazer felizes, mas para realiza-lo é preciso renunciar à idéia de liberdade sexual, fidelidade ao próprio desejo, intransigência em relação aos interesses próprios, defesa do individualismo nas suas várias facetas, etc. Em segundo lugar, a minha preocupação como cidadão. O amor romântico se tornou uma das fortalezas do individualismo possessivo e consumista de hoje. Se estivermos satisfeitos do ponto de vista amoroso, o resto pouco importa: que o mundo caia ao redor; que as crianças de Serra Leoa morram de fome, mutiladas ou estupradas por guerrilheiros; que os 10% dos brasileiros mais ricos tenham 28 vezes mais riqueza do que os 40% mais pobres – nada disso interessa. A corrida para o consumo do amor nos mantém afobados, inquietos, alheios e indiferentes a tudo em torno, como corredores de uma maratona alucinada, cujo prêmio é uma bala perdida ou a constituição de uma “família” e uma “relação” que em geral duram tanto quanto a “felicidade” da propaganda de objetos. Essa insanidade não é “intrínseca” ao amor, nem propriedade exclusiva do amor, nem condenação à busca da realização amorosa. Realizar-se “amorosamente”, acima de egoísmos narcisistas, “mau-caratismo” epidêmicos, ganâncias desmedidas, descompromisso generalizado com o bem comum etc. é uma ilusão tão grande quanto esperar ser virtuoso sendo escravagista, misericordioso sendo inquisidor, democrata sendo torturador, justo sendo explorador, tolerante sendo discriminador etc. Amor algum pode florescer à sombra do desdém pelos mais frágeis e da violência sem limites dos mais fortes. Em terceiro lugar, a questão do amor veio à tona como mera preocupação humana. Se viver só faz sentido se for uma vida feliz, devemos ter sempre em mente o debate sobre o sentido da felicidade desejada. Nesse aspecto, sou radicalmente “arenditiano”: obedecer sem pensar; fazer e acreditar, sem pensar, no que todo mundo faz e acredita é a maior dignidade a que se submete um ser humano. Nem uma emoção tão forte, agradável e desejável quanto o amor-paixão romântico pode pretender atentar contra a liberdade. É isso que justifica, dá sentido a existência do animal humano no planeta.
(Totalitarismo e Delinqüência – entrevista com Jurandir Freire Costa)


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