quinta-feira, 25 de junho de 2009

Uma proposta para comentário em Sociologia

Olá, queridos amigos! (pois respondam, ainda que mentalmente!!)


Segue a proposta de comentário!
Vocês podem escolher um dos seguintes artigos publicados no blog:
Habitar o vento, uma pequena biografia da antropóloga Margaret Mead e, especialmente, discutir a questão relacionada a Gênero e cultura (vale relacionar com a idéia de minorias sociais no Brasil atual);
ou...
Pesquisa revela o preconceito nas escolas, discutindo a questão dos inúmeros preconceitos que permeiam nossas vidas.
A regra para a postagem é simples: usem a bagagem de vida que vocês já possuem e pensem nas tantas coisas que já conversamos.
No mais, o que não falta é inteligência.
Bom texto e um beijo!


Minorias: lutas populares e direitos humanos

Maria Vitória de Mesquita Benevides
(...) A respeito de minorias, queria lembrar também a confusão que se faz num país como o nosso sobre o próprio conceito de minoria. O que queremos dizer quando nos referimos aos direitos das minorias? Que minorias são essas? Eu sempre acho um pouco de graça quando se fala de mulheres e negros como minorias no Brasil, porque, sobre qualquer ponto de vista do conjunto da sociedade, numericamente tomada, mulheres e negros e/ou descendentes da raça negra são majoritários no país.
Assim, é preciso entender que, em alguns países do primeiro mundo, o conceito de minoria é claro, porque se refere àqueles grupos que, por razões até mesmo forçadas de uma imigração econômica, ou política, ou religiosa, são minoria no sentido de não estarem integrados a um determinado sistema legal, a uma determinada ordem jurídica que reconhece direitos e deveres de cidadania, como o são as minorias religiosas, étnicas ou raciais que existem no primeiro mundo e que, como sabemos, estão efetivamente à mercê da nova ordem bárbara dos nacionalismos, da discriminação e do racismo. Neste caso, o conceito de minoria é também um conceito numérico. São grupos minoritários inseridos em sociedades mais amplas e que estão inicialmente desprovidos dessa inserção legal. Então, a sua luta é no sentido não apenas do reconhecimento cultural, mas também da inserção legal como nacionais, como cidadãos. No caso do Brasil, a idéia de minoria não é tão clara e, quando falamos de Lutas Populares e Direitos Humanos, a questão aparece com maior clareza ainda, porque aqueles mais carentes de direitos humanos são justamente os que formam também a maioria numérica do país.
http://www.dhnet.org.br/direitos/militantes/mariavictoria/vitoriapr.html — Acesso em 21/06/2009

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Uma proposta para comentário em Filosofia

Nossas aulas, no decorrer deste bimestre, seguiram a caminhada pelo mundo dos valores.
Abordamos e debatemos questões intensas, como liberdade e afetos.
Em contexto, assistimos ao belo “Linha de Passe”, filme dirigido por Walter Salles e Daniela Thomas. No centro de tudo, os limites da ação humana diante daquilo que a vida nos coloca, ou nos impõe. Afinal, quais são nossos caminhos; como agimos diante das questões que a vida nos coloca ou, de outra forma, como nos posicionamos diante dessas mesmas questões?
Peço a cada um de vocês, que escolha um personagem do filme, por afinidade ou distanciamento, e discuta/problematize a sua caminhada no desenrolar da trama. Se você quiser, e isso não é necessário, roteirize uma continuidade para a ação do seu personagem, apontando os possíveis desdobramentos de sua vida nessa trama tão imaginária quanto possível.
Beijo,



Linha de Passe: A escolha do povão

Artigo publicado no Jornal Folha de São Paulo, Caderno MAIS!, 31 de Agosto de 2008.

Jurandir Freire Costa

Daniela Thomas e Walter Salles voltam às telas com "Linha de Passe". A cultura brasileira, uma vez mais, é revista pelo talento cinematográfico dos dois [que juntos dirigiram "O Primeiro Dia" e "Terra Estrangeira", entre outros filmes] e o resultado é apaixonante dos pontos de vista artístico e humano.

A matéria-prima do filme é o cotidiano dos que carregam este país nas costas.
Cleuza - personagem vivido por Sandra Corveloni, ganhadora do prêmio de intérprete feminina no Festival de Cannes - e seus filhos nem transitam pelo bas-fond do poder nem em meio aos delinqüentes descamisados.

Seu universo é o das empregadas domésticas que vivem nos fundos de cozinhas; dos frentistas dos postos de gasolina; dos motobóis; dos jovens desempregados que aspiram à celebridade midiática; das ruas escuras; das calçadas esburacadas; dos ganidos melancólicos de cachorros vadios e, finalmente, da luz parca e intermitente do mundo televisivo, último sonho dos que vivem no pesadelo brasileiro.

Os diretores exibem tudo isso sem ares de falsa neutralidade. Em "Linha de Passe", nada de fábulas edificantes ou do moralismo de estufa que costuma maquiar a miséria com cores de exotismo. Desde o início, nos sentimos concernidos pelo lado oculto da vida do "povão".

Realidade hostil 
Os mitos da ascensão econômica pelo futebol, do ideal do trabalho enobrecedor, da credulidade religiosa como ópio para a aspereza do dia-a-dia etc. são desmontados em suas engrenagens mentirosas.
Nessa realidade hostil, não há lugar para contos de fadas.
Quem está sujeito ao tacão do mais forte cedo aprende a conhecer o chão onde pisa.
Cada um, portanto, se vira como pode para enfrentar a brutalidade do dia-a-dia: preconceitos raciais e de classe social, pequenas corrupções e interesses mesquinhos nos locais de trabalho, consciência de que a lei é um faz-de-conta para os privilegiados e, por fim e o mais grave, apelos constantes para que todos se degradem moralmente, a fim de que os cínicos de plantão possam gozar com sua máxima de vida: "Somos todos porcos, comendo no mesmo cocho".
Até aí, pode-se dizer, estamos em terreno conhecido. Daniela Thomas e Walter Salles, porém, vão adiante. Trazem à tona a vida interior dos personagens, duplicando a narrativa sobre o panorama social com uma reflexão sobre a delicadeza da condição humana.
Cleuza e sua família são pessoas que, como qualquer um de nós, devem agir de forma moral. Mas em circunstâncias extremas, o que muda tudo.

O filme mostra o que significa equilibrar-se nessa corda bamba, em que hesitar em agir ou agir sem hesitar são condutas igualmente arriscadas.
Decidir entre o bem e o mal, em regime de urgência e sobre assuntos que implicam a sobrevivência, é uma das formas mais duras que temos de por à prova nossa consciência moral.

Vivendo no limite 
Dario e seus irmãos vivem sempre em estado de exceção, às voltas com dilemas em que é quase impossível saber se é mais justo obedecer à lei ou transgredi-la, se é mais compassivo guardar fidelidade a valores consagrados ou infringi-los em nome de um bem maior - o direito à vida e à dignidade.
Donde o inquietante tom agônico do filme. Os personagens vivem num exaustivo processo de luta consigo e com os outros, num movimento de tensão psicológico-moral no limite do insuportável. A qualquer instante, antevemos o desastre que está para acontecer.

Ainda assim, o espaço para a dúvida é um luxo ao qual nenhum dos personagens pode se dar. É preciso agir pronto para perder, é preciso defender desesperadamente o que resta, sem tempo para chorar as ilusões perdidas.
De vez em quando, todavia, a raiva e a tristeza contidas explodem e invadem a cena. Esse é um dos momentos mágicos do filme. Daniela Thomas e Walter Salles, numa imprevista virada ético-estética, mostram que, mesmo jogados ao fundo do poço moral, os personagens não sucumbem.
Ao contrário, reagem e desmentem as clássicas imagens da impotência dos mais frágeis. São eles, os desvalidos, que acabam por afirmar que "o pior cego é o que não quer ver" e "o pior paralítico é o que não quer andar".

Subvertendo de forma criativa a metáfora religiosa dos "milagres evangélicos", os autores nos fazem ver que o mais extraordinário milagre é o da vontade humana para recomeçar, ali onde qualquer esperança parecia morrer.
Finda a projeção, continuamos com os imperativos martelando na cabeça: "Anda!", "vê!". Belo lembrete dos que sabem fazer cinema sabendo para que serve o cinema. Enfim, um filme com a marca registrada de Daniela Thomas e Walter Salles: inimitável e imperdível.


Pesquisa revela preconceito nas escolas

Flávia Albuquerque, UOL educação, 17/06/2009

Pesquisa realizada em 501 escolas públicas de todo o país, baseada em entrevistas com mais de 18,5 mil alunos, pais e mães, diretores, professores e funcionários, revelou que 99,3% dessas pessoas demonstram algum tipo de preconceito étnico-racial, socioeconômico, com relação a portadores de necessidades especiais, gênero, geração, orientação sexual ou territorial. 

O estudo, divulgado nesta quarta-feira (17), em São Paulo, e pioneiro no Brasil, foi realizado com o objetivo de dar subsídios para a criação de ações que transformem a escola em um ambiente de promoção da diversidade e do respeito às diferenças.

De acordo com a pesquisa Preconceito e Discriminação no Ambiente Escolar, realizada pela Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) a pedido do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), 96,5% dos entrevistados têm preconceito com relação a portadores de necessidades especiais, 94,2% têm preconceito étnico-racial, 93,5% de gênero, 91% de geração, 87,5% socioeconômico, 87,3% com relação à orientação sexual e 75,95% têm preconceito territorial.

Segundo o coordenador do trabalho, José Afonso Mazzon, professor da FEA-USP (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo), a pesquisa conclui que as escolas são ambientes onde o preconceito é bastante disseminado entre todos os atores. "Não existe alguém que tenha preconceito em relação a uma área e não tenha em relação a outra. A maior parte das pessoas tem de três a cinco áreas de preconceito. O fato de todo indivíduo ser preconceituoso é generalizada e preocupante", disse.

Com relação à intensidade do preconceito, o estudo avaliou que 38,2% têm mais preconceito com relação ao gênero e que isso parte do homem com relação à mulher. Com relação à geração (idade), 37,9% têm preconceito principalmente com relação aos idosos. A intensidade da atitude preconceituosa chega a 32,4% quando se trata de portadores de necessidades especiais e fica em 26,1% com relação à orientação sexual, 25,1% quando se trata de diferença socioeconômica, 22,9% étnico-racial e 20,65% territorial.

O estudo indica ainda que 99,9% dos entrevistados desejam manter distância de algum grupo social. Os deficientes mentais são os que sofrem maior preconceito com 98,9% das pessoas com algum nível de distância social, seguido pelos homossexuais com 98,9%, ciganos (97,3%), deficientes físicos (96,2%), índios (95,3%), pobres (94,9%), moradores da periferia ou de favelas (94,6%), moradores da área rural (91,1%) e negros (90,9%).

De acordo com o diretor de Estudos e Acompanhamentos da Secad (Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade) do MEC (Ministério da Educação), Daniel Chimenez, o resultado desse estudo será analisado detalhadamente uma vez que o MEC já demonstrou preocupação com o tema e com a necessidade de melhorar o ambiente escolar e de ampliar ações de respeito à diversidade.

"No MEC já existem iniciativas nesse sentido [de respeito à diversidade], o que precisa é melhorar, aprofundar, alargar esse tipo de abordagem, talvez até para a criação de um possível curso de ambiente escolar que reflita todas essas temáticas em uma abordagem integrada", disse.

Comentem...


terça-feira, 16 de junho de 2009

O psicanalista Jurandir Freire e o "Amor Romântico"

Fragmento extraído da entrevista "Totalitarismo e Delinquência".

Guacira Waldeck – O que motivou a escrever Sem fraude, nem favor, livro em que discute o ideal do amor romântico como possibilidade da vida humana?
Jurandir Freire Costa – Em primeiro lugar, a minha preocupação profissional. O sofrimento amoroso é um dos mais invalidantes na época atual, os indivíduos são capazes de paralisar as suas vidas, criatividades, interesses pelo mundo para se dedicarem aos sofrimentos de amor, à ruminação das frustrações amorosas, à busca desesperada de realização de um ideal afetivo-sexual. O amor é apresentado como uma das poucas coisas que podem nos fazer felizes, mas para realiza-lo é preciso renunciar à idéia de liberdade sexual, fidelidade ao próprio desejo, intransigência em relação aos interesses próprios, defesa do individualismo nas suas várias facetas, etc. Em segundo lugar, a minha preocupação como cidadão. O amor romântico se tornou uma das fortalezas do individualismo possessivo e consumista de hoje. Se estivermos satisfeitos do ponto de vista amoroso, o resto pouco importa: que o mundo caia ao redor; que as crianças de Serra Leoa morram de fome, mutiladas ou estupradas por guerrilheiros; que os 10% dos brasileiros mais ricos tenham 28 vezes mais riqueza do que os 40% mais pobres – nada disso interessa. A corrida para o consumo do amor nos mantém afobados, inquietos, alheios e indiferentes a tudo em torno, como corredores de uma maratona alucinada, cujo prêmio é uma bala perdida ou a constituição de uma “família” e uma “relação” que em geral duram tanto quanto a “felicidade” da propaganda de objetos. Essa insanidade não é “intrínseca” ao amor, nem propriedade exclusiva do amor, nem condenação à busca da realização amorosa. Realizar-se “amorosamente”, acima de egoísmos narcisistas, “mau-caratismo” epidêmicos, ganâncias desmedidas, descompromisso generalizado com o bem comum etc. é uma ilusão tão grande quanto esperar ser virtuoso sendo escravagista, misericordioso sendo inquisidor, democrata sendo torturador, justo sendo explorador, tolerante sendo discriminador etc. Amor algum pode florescer à sombra do desdém pelos mais frágeis e da violência sem limites dos mais fortes. Em terceiro lugar, a questão do amor veio à tona como mera preocupação humana. Se viver só faz sentido se for uma vida feliz, devemos ter sempre em mente o debate sobre o sentido da felicidade desejada. Nesse aspecto, sou radicalmente “arenditiano”: obedecer sem pensar; fazer e acreditar, sem pensar, no que todo mundo faz e acredita é a maior dignidade a que se submete um ser humano. Nem uma emoção tão forte, agradável e desejável quanto o amor-paixão romântico pode pretender atentar contra a liberdade. É isso que justifica, dá sentido a existência do animal humano no planeta.
(Totalitarismo e Delinqüência – entrevista com Jurandir Freire Costa)


Habitar o Vento

A antropóloga Margaret Mead é uma personagem monumental, uma das grandes mulheres do século XX. Fisicamente, contudo, era muito pequenina; aos 23 anos, mal media 1.50 metros e só pesava 46 quilos. Tinha essa idade em 1924, quando viajou para Samoa, na Polinésia, para fazer seu primeiro trabalho de campo. Assim, tão miúda, cabelo crespo e curto, grandes olhos azuis, óculos de fundo de garrafa e cara de menino travesso, Mead parecia uma garotinha. Com o tempo, porém, engordou muitíssimo. Foi uma mudança prodigiosa: ela se dilatou e se achatou como um croquete. Desde que fraturara uma perna em 1960, Margaret sempre levava consigo uma longa forquilha de castanheiro. Vista nas fotos dessa época, redonda e pigméia até o inverossímil e brandindo sua vara primitiva, a antropóloga parece um personagem de conto de fadas: um gnomo, uma bruxa resmungona mas bondosa, uma feiticeira arcaica.
(...)
Margaret Mead é uma personagem complexa, secreta, contraditória, de uma enormidade irredutível e explicações fáceis. (...) Levantava-se todo dia às cinco da manhã e, antes de chegar ao seu escritório no museu americano de História Natural, já escrevera três mil palavras. Fez 39 livros, 1.397 artigos e 43 obras filmadas ou gravadas, e realizou cerca de 15 estudos de campo em lugares remotos. Mas além disso, e entre outras coisas, deu aulas em diversas universidades, trabalhou trinta anos como conservadora do museu, participou de todo tipo de conferência, dirigiu a Comissão de Hábitos Alimentícios (organismo oficial que mais tarde se tornaria a Unesco), deu tantas entrevistas quanto uma atriz de Hollywood, casou-se três vezes e, para culminar, teve uma filha, Catherine Beteson, também antropóloga (...).
Mead foi uma perfeita filha do seu tempo, uma jovem dos anos 1920. Era uma época de audácia e transgressão: as mulheres encurtavam as saias e os cabelos, ouviam jazz em porões turbulentos, bebiam álcool até perderem os sentidos, praticavam o amor livre e tornavam-se pilotos de corrida. Margaret jamais se permitiu algum excesso e, enquanto a cidade crepitava ao seu redor, dormia disciplinadamente em sua caminha de donzela; mas se desfez de suas espessas e simbólicas madeixas novecentistas (...) e foi a mais aventurosa de uma geração de aventureiras, a mais aguerrida de um mundo de guerreiras.
(...)
Margaret Mead revolucionou a antropologia. Primeiro porque a popularizou: era uma ciência muito jovem e ela soube vende-la publicamente, contar detalhes saborosos nos jornais, fazer de si mesma uma personagem. Mas, além disso, desenvolveu e aperfeiçoou os métodos de trabalho (a aplicação da fotografia, por exemplo) e, sobretudo, fez perguntas que antes ninguém fazia. Centrou-se em temas aparentemente secundários naquela época: as mulheres, as crianças, as diferenças de gênero. Tornou-se famosa desde seu primeiro livro, mas com Sexo e Temperamento nas sociedades primitivas, publicado em 1930, armou uma revolução. A obra é o estudo de três tribos da Nova Guiné, relativamente próximas entre si, e nas quais os papeis sexuais eram completamente diferentes: na primeira, tanto homens quanto mulheres se comportavam de maneira passiva, afetuosa, maternal; na segunda, eles e elas eram agressivos e violentos; e na terceira, enfim, os varões atuavam segundo o estereótipo feminino ocidental (iam às compras, encrespavam o cabelo), enquanto as mulheres agiam segundo o estereótipo masculino (não se enfeitavam, eram as mais energéticas, as mais decididas).
De tudo isso, Mead deduzia sensatamente que as diferenças de comportamento em razão do sexo não eram naturais e imutáveis, mas sobretudo culturais; de modo que, com seus trabalhos, ela contribuiu substancialmente para libertar a mulher (e o homem, inegavelmente) dos estereótipos sexuais. Margaret Mead não estava sozinha nessa reclamação, e sim fazia parte de um amplo movimento científico que, na velha polêmica entre ambiente e herança, advogava a preponderância do cultural. Hoje, volta a estar na moda justamente o contrário, o biologismo. (...)
De fato, Mead foi pioneira de um dos conceitos centrais da modernidade: a valorização das diferenças.
Adaptado de Montero, Rosa; Histórias de Mulheres. Ed. Agir, 2008.



segunda-feira, 15 de junho de 2009

Marx e ideologia

Longe de nos ser apresentado como perfeito, “nosso mundo” nos é dado como tragédia.
O realismo das imagens, sim nosso mundo é imagético, nos dá informações precisas sobre guerras, crimes, miséria, fome, fratricídios, homicídios; nos dá a prova que diante dos fatos desse nosso mundo, ele que é como é, nada adianta fazer. Rendemo-nos, assim, ao reino do determinismo; da impossibilidade de ação; da quase certeza da índole destrutiva do homem que é, Hobbes está com a razão, lobo do homem.

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É curioso notar como Marx apresenta sua leitura ou construção teórica para o conceito de ideologia.
A teoria marxista, numa análise assumidamente rasteira, digo logo, é teoria materialista. Enxerga o homem envolvido sempre em determinadas relações, relações de produção, que resultam primeiramente da necessidade de satisfação daquilo que nos é básico; elementar. Afinal, precisamos comer para existir, crescer, reproduzir e garantir perpetuação como espécie. Nesse processo, nos relacionamos com nossos semelhantes e com a natureza. Damos significado ao mundo e adquirimos, nós também, significado/existência diante dele. O ato fundador de todo esse processo é o trabalho. Somos o que e como (no caso, em que condições) trabalhamos. Daí teoria materialista.
O desenvolvimento das formas e relações de trabalho ao longo da história humana engendrou novas relações entre homens; estabeleceu uma divisão do trabalho cada vez mais complexa e, com o aparecimento da propriedade privada dos meios de produção, uma separação entre grupos ou “classes sociais” – para manter fidelidade a termologia marxista.
Vale frisar que, para Marx, o conceito de classes sociais está intimamente relacionado ao processo de produção sendo que a posição social de um indivíduo relaciona-se intimamente à posição que ele ocupa neste processo. Exemplificando: na sociedade capitalista as classes sociais fundamentais, burguesia e proletariado, distinguem-se pelo fato de a primeira ser a detentora dos meios de produção e a segunda, por ser expropriada destes.

Como afirmaram Marx e Engels em A Ideologia Alemã, marcando sua oposição ao idealismo:

“... parte-se dos homens realmente ativos e, a partir de seu processo de vida real, expõe-se também o desenvolvimento dos processos ideológicos e dos ecos desse processo de vida. (...) Não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência.”

Partindo de tal premissa, toda a produção da consciência humana - em qualquer momento histórico - encontra-se condicionada às relações materiais de produção; é expressão de tais relações. O espírito é impregnado, desde sempre, de materialidade. Outra forma de dizer o mesmo: ideologia, para Marx, é intimamente ligada, determinada, pela ação dos homens envolvidos no processo de produção. Temos aí, nessa afirmação da base material da produção das idéias, o elemento definidor do conceito de ideologia para a teoria marxista.

Seguimos: como classe dominante, a burguesia se apropria do aparelho do Estado, utilizando-o no sentido de garantir sua dominação sobre as classes subalternas. Repressão legal, quer seja ela política, jurídica ou policial, constituem a expressão dessa dominação. Para além disso, a dominação burguesa se dá também através do discurso ideológico.

Continuando com Marx:

"As idéias da classe dominante são, em cada época, as idéias dominantes; isto é, a classe que é a força material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, sua força espiritual dominante. A classe que tem à sua disposição os meios de produção material dispõe, ao mesmo tempo, dos meios de produção espiritual, o que faz com que a ela sejam submetidas, ao mesmo tempo e em média, as idéias daqueles aos quais faltam os meios de produção espiritual."

Ou ainda:

"Os indivíduos que constituem a classe dominante possuem, entre outras coisas, também consciência e, por isso, pensam; na medida em que dominam como classe e determinam todo o âmbito de uma época histórica, é evidente que o façam em toda a sua extensão e, consequentemente, entre outras coisas, dominem também como pensadores, como produtores de idéias... e que suas idéias sejam, por isso mesmo, as idéias dominantes de uma época.”

Tais passagens deixam clara a conexão que existe entre produção de idéias e idéias dominantes em um dado modo de produção. As idéias que sobressaem em determinado período são, na verdade, as idéias da classe que detém o poder econômico e político em um período. Mais ainda, são representações ideais das relações de dominação, o que significa dizer que não correspondem à realidade que tais relações implicam em sociedade. O ser real de uma dada sociedade é encoberto, mostrando-se uma expressão ideal, portanto errônea, do que de fato ela é. Dessa forma, as idéias assumem a forma de convencimento; o que justifica, reproduz e busca perpetuar determinada classe no poder.

Retomando nosso ponto de partida: os meios de comunicação de massa, expressões da dominação capitalista numa era de informação e imagem, nos mostram sim uma realidade, porém desprovida de significados que nos permitam entender o que nos é dado como real. O “hobbesianismo” se legitima pela falta de conexão causal entre criador e criatura. Explico: violência e miséria não seriam o resultado exclusivo da falta de caráter ou da maldade de parcela dos homens, mas sim de um sistema que produz crescente violência e miséria, subprodutos dos interesses econômicos de um grupo dominante.
Ah! Assim não questionamos a sociedade capitalista, mostrada idealmente e vista como produtora de igualdades, mantenedora das oportunidades e, a sua maneira, promotora de uma justiça jamais vista em nossa história. Tornamo-nos passivos diante de um aparente determinismo, fincado na ganância, maldade e no cinismo humano. Mudar? Não adianta. Hobbes tinha razão ou é só discurso ideológico?

Ubatuba, 15 de junho de 2009.